O Amor é a única doença transmissível pelo olhar...

S a m a e l - Um de Nós


I

Um de Nós



«... – Louco! As vozes que ouves são das almas que roubas-te!...»


Algures nas catacumbas de uma igreja; noite.

Os cânticos entoavam nas paredes de pedra da antiga igreja embora ninguém naquele templo ousasse abrir a boca. Os presentes olhavam em redor boquiabertos embora sem motivo, julgou Verónica. Se tivessem vivido duzentos anos antes teriam presenciado aquela cena por diversas vezes, embora em circunstâncias diferentes.

Eles eram doze. Verónica liderava-os e eles rodeavam-na no altar onde jazia o corpo do morto, pálido e rijo. Ela gesticulava por efeito dos gazes que o alquimista preparara. Este, estava acocorado num canto daquele templo tremendo e temendo os acontecimentos que acabara de desencadear.

- Vem! – gritou Verónica e todos se voltaram a concentrar nela. Abriu os braços e ergueu-os para o céu – passara muitas noites a ensaiar aquele ritual. Tanto tempo perdido que poderia agora ser recompensado. Os últimos anos tinham sido uma tortura constante: Primeiro a prisão do seu amado Carlos que fora levado para as montanhas do Gerês. Depois a desintegração do seu clã por falta de liderança. Seguidamente, a vergonha de ser uma vampiro sem clã nem tutor. Entregue a si mesma num mundo onde até os imortais começavam a criar laços de fraternidade. –por todo o lado, novos clãs nasciam para proteger os seus membros naquele mundo cheio de perigos. Ela, no entanto, estava sozinha.

Até agora.

Vários anos de procura e peregrinação pela europa deram-lhe o conhecimento que faltava. As lições do alquimista deram-lhe a técnica que precisava e aquelas onze almas solitárias deram-lhe a ambição de se erguer de novo, mais alta que os seus semelhantes.

Os cânticos continuavam, cada vez mais alto.

Um dos presentes exclamou:

- Isto é de loucos! – e todos olharam para ele. – Parece que o céu se aproxima de nós! Quem canta?! De quem são estas vozes..?

O alquimista falou alto para o altar:

- Louco! As vozes que ouves são de todas as almas que roubas-te!

» Cada um ouve as suas vozes. E espera porque elas vão parar de cantar. E então falaram contigo...!

- Calem-se! – ordenou Verónica, de braços pousados no altar e cabeça baixa. Os gazes que emanavam do cálice de prata pareciam ter desaparecido. Ela olhou em volta para todos aqueles vampiros que a rodeavam; Os seus olhos tinham perdido a cor e estavam brancos. – Sinto que o perdi. Ou... que nem sequer o alcancei...

Todos os presentes entreolharam-se.

As vozes começavam a cessar para alegria de alguns mas a maioria ficou confusa por tudo desaparecer tão depressa. «Já acabou...?», interrogaram-se. De todos o alquimista parecia o mais aliviado.

- E agora? - perguntou alguém.

Verónica suspirou, pensativa.

- Agora dispersamos e voltamos para o nosso sono antes que amanheça. Amanhã reunimos no mesmo local á mesma hora e aí decidiremos o que fazer.

Todos pareceram receber bem a ordem. O Alquimista, vendo que o perigo já passara e suspirando de alivio aproximou-se do grupo. Era um homem velho e de aspecto franzino. De rosto muito enrugado, sem um único cabelo ou pelo na cara.

- Perdoe-me Verónica, mas que fazemos com o corpo deste jovem...?

Todos olharam para o corpo pálido no altar. Aquele fora um grande vampiro, em tempos antigos. Contava mais de mil anos desde que fora destruído mas o seu corpo fora conservado por alquimistas desse tempo. O corpo fora mantido como um tesouro e passado de mestres para aprendizes até Verónica e o velho alquimista Joseph o roubarem á Ordem de Milão, a sua penúltima morada. Agora jazia ali, em frente deles. Dentro de pouco tempo desintegrar-se-ía, bem mais depressa que é habitual um corpo desintegrar-se.

- Deixem-no aqui – disse ela. – Dentro de algumas horas só restará uma massa viscosa e nada mais. Ele não é problema.

Começaram então a sair do templo, um a um. Até ficar apenas Verónica e o velho alquimista.

- Reconsiderai! – suplicou ele. – Este corpo é um tesouro antigo que deve ser mantido. Quem sabe podemos usá-lo no futuro...

- Não podemos usá-lo, Joseph. Ele não quer.

- Ele...?

- Sim, ele não quer.

O alquimista ficou pasmado. O seu olhar saltava entre o corpo e aquela mulher vampiro. – Falou com ele...?

Ela começou a caminhar por entre os candelabros.

- Vi muitas coisas, Joseph. Mas não falei com o dono do corpo. Falei com outra pessoa. Alguém maior que ele.

» Disse-me que queria sair. Que estava cansado daquele lugar. Que aguardava há milénios por uma fuga. Disse-me que era um anjo e um demónio. Disse ser superior a um querubim mas inferior a um serafim.

- Não vejo quem possa ser... – confessou o alquimista. – Deve ser um anjo caído, se é que existe realmente algum. Duvido que fosse o próprio Lúcifer.

Verónica fixou o corpo sem vida. O seu olhar melancólico e desapontado entristecia até as estátuas dos santos. Quase que o trouxera de volta. Quase! Não fosse aquele maldito demónio meter-se no caminho... Suspirou profundamente embora não precisasse de facto de o fazer. Observava o rosto do jovem. Era belo. Tão belo como fora mil anos antes. Foi mais que qualquer outro vampiro, desde Lilith. Se o tivesse conseguido trazer de volta possuiria uma chave que abriria todas as portas. Nada poderia temer com semelhante aliado. Agora voltara ao zero. Na noite seguinte pensaria no que fazer. Voltou as costas ao altar e caminhou pelo tapete vermelho da igreja. Seguida pelo velho. Por fim, bateram a porta num estrondo ensurdecedor.

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